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Cosmologia como uma sistemática...

domingo, 11 de outubro de 2009

AS PREMISSAS DA FILOSOFIA

A filosofia contemporânea, ou se preferirem, Marx e Nietzsche, ou ainda, Hegel e Schopenhauer, seguiriam uma relação de herança ou intimidade com a ciência ou a arte. Essa aproximação nasce na erosão da metafísica medieval, isto é, o surgimento da modernidade na filosofia, no apocalipse da escolástica: a cultura filosófica medieval.

A filosofia medieval tinha se resolvido no apogeu do cristianismo como teologia, na problematização entre fé e razão. Cada teólogo, antes um sacerdote cristão, e antes disso um exemplar do mundo feudal, respondia a modo próprio a pergunta. Só para citar os mais conhecidos: para Santo Agostinho, fé e razão se esclareciam mutuamente (completariedade); para São Tomaz de Aquino, eram partes que unidas formavam a teologia como caminho a Deus. Ainda outros que defendia a superioridade da fé ou da razão, ou a total irrelevância da razão Duns Escoto. Este último por sua vez, teve o mérito de desligar a filosofia da religião.

Os primeiros modernos tentavam por sua vez emancipar o pensamento de seu atrelamento a religião, ainda que com toda a precaução de não irritar a santa inquisição ou mesmo apenas desagradar a autoridade da Igreja. A burguesia emergente elegia a razão acima da fé, sem relegar a fé. A ciência era o seu argumento, ainda que em um sentido próprio. A filosofia, portanto, devia agora não mais se sustentar na religião, mas na ciência. Essa filosofia panfletária a favor da razão/ciência/experiência formou o primeiro passo frente à crise da filosofia teológica medieval. Todo esse movimento passou pelo humanismo, o empirismo, o racionalismo, o idealismo, ou em termos gerais, o iluminismo, etc.

No entanto, uma reação a essa movimento cientificista, utilitarista, racionalista, em certos termos, calculista, se registrou como romantismo. O romantismo foi em parte uma volta ao catolicismo(teologia medieval), mas não uma volta pura. Não era mais o cristianismo a autoridade, mas o sentimentalismo que ele representava. Enquanto o iluminismo era ligado a ciência, o romantismo se ligava a arte. Enquanto o iluminismo se ligava ao individualismo objetivista, uma tendência emergente; já o romantismo resgatou o nacionalismo popular subjetivista. O romantismo, por sua vez, fora gestado dentro do próprio iluminismo, nas idéias de seu precursor: Rousseau.

Assim, as tendências cientificistas-intelectualistas e artísticas-sentimentalistas se bifurcaram na filosofia, e em Hegel e Schopenhauer essa divisão é bem nítida. Hodiernamente, as grandes expressões filosóficas dessas duas tendências são: Marx e Nietzsche. Sem dúvida, não foram poucos os que tentaram sintetizar os dois pensadores, e rearticularem o ontologismo da cienciência com o fenomenalismo das artes.


O RENASCIMENTO CONCEITUAL DO COSMOS

A cosmologia é prescrita pelos comentaristas de filosofia em geral como uma fase dos pré-socráticos, para aqueles que buscavam uma explicação e entendimento da physis(natureza ou universo) a partir de um princípio(arché) totalizante. Era a busca de entender o todo sob uma explicação racional. A cosmologia foi a primeira tendência pré-socrática, foram os parteiros da filosofia. Foram eles Tales de Mileto, Anaxágoras e Anaxímenes. Eram chamados cosmólogos apenas por que buscavam uma causa que explicasse de certo modo a ordem de todas as coisas, a essa causa chamavam ‘arché’ (princípio) e a esse todo chamavam ‘physis’ (natureza).

Mas o que é o cosmos senão a antítese do kaos? Cosmos significa ‘ordem’ no sentido de organização. Kaos é a desordem, o confuso. No entanto, o sentido essencialista ou concreto de cosmologia é hoje totalmente inviável. Se as religiões orientais nos reportam um certo sentido de ‘cosmos’ como uma expressão subjetiva em relação ao ‘universo’, ainda que se apropriando de um léxico grego, é porque corrompem o conceito do mesmo modo que o cristianismo corrompeu o conceito de ‘alma’, ‘virtude’ e ‘bem’. A corrupção aqui não é apenas uma interpretação semântica diversa do original, mas uma degeneração semântica. O sentido original é sepultado e só é resgatável no trabalho de um arqueólogo.

Cosmologia que aqui eu proponho, é mais radicalmente ligada a sua gênese etmológica. É o logos do cosmos, isto é, o estudo da ‘ordem’. No entanto, a ordem não tem sentido objetivo, seja natural ou histórico. Não é natural, porque a natureza não tem uma ‘ordem’, ela é um resultado de acasos que formam por adaptação e luta, a progressiva carga genética das espécies e a mobilização dos corpos celestes, etc. Não é social, porque a ‘ordem’ não vai além do que um preconceito descaradamente ideológico e que expressa o interesse conservador de um determinada classe dominante. A ‘ordem’ ou o cosmos só pode ser um produto do trabalho humano, um esforço humano de organizar o seu mundo para si.

A cosmologia ou o estudo da ordem, em filosofia, seria a tentativa de sistematizar todo o saber humano, toda produção espiritual. De modo a tentar articulá-la de modo compreensível. Ela se diferencia de cosmos, que é uma expressão de algo que suponha ter ou se define como ordem.


A COSMOLOGIA

Para uma cosmologia possível, ela teria que absorver todo o saber humano, não só de modo a alcançar peças em que formaria sua cosmologia (não confundir com cósmica), mas de modo a formar os instrumentos em que se operaria essa formação. Dessa forma, os sistemas ou a cosmologia, estaria sempre fadado ao esforço intelectual mais laborioso e ao mais breve e frágil condicionamento histórico; pois seria permanentemente reconstruído a cada progresso das ciências.

Por outro lado, a cosmologia tem vários graus de detalhamento. Em geral, como seu objetivo é organizar toda a produção espiritual humana de modo logicamente articulado, teria sempre uma longevidade maior do que a mobilização de seus átomos teóricos.

A tese cosmológica deve então ter duas vias, uma estrutural outra histórica. Enquanto estrutural, ela organiza o saber como um retrato. Mais desenvolve essa estrutura como um desdobramento histórico.


A TESE COSMOLÓGICA PROPOSTA

A produção espiritual se divide em três momentos: antropomorfismo, morfologismo, antropologismo. Antropomorfismo é fase mítica aonde o homem se expressa de modo caótico frente a sua civilização embrionária, expressando no seu entendimento do mundo as formas humanas em que se reconhece. Assim, a natureza é representada como objetividade projetada de sua subjetividade. Deuses que representam sentimentos humanos e assumem semelhança humana, etc. O morfologismo é a fase em que se constitui a propriedade privada, assim, as expressões espirituais da fase arcaica é mobilizada e institucionalizada como expressões de poder de grupos sociais, sobretudo como monarcas-divinizados. No antropologismo, o pensamento retorna ao homem, mas de modo desmistificador. Essa é a fase atual. Na fase antropomórfica, o pensamento se confunde com formas embrionárias de arte, ciência e filosofia. Na fase morfológica, o pensamento religioso e secular se separam. Ocorrendo conflito e culminando na teologia católica que submete a razão à fé, e no seu sucessor pré-moderno, o iluminismo, que submete a fé a razão. Na perspectiva antropológica, a fé é apenas uma expressão do homem, e não uma instituição, servindo apenas para exemplificar uma cultura e uma percepção superticiosa da vida. A fé é apenas uma expressão individual de um credo de uma certa igreja, é um tema para historiadores e sociólogos.

Toda produção espiritual humana se divide em três categorias: arte, ciência e filosofia. A filosofia é a fonte e o horizonte de todo o saber humano e sua essência específica é a reflexão, essa é sua identidade e diferença. Como fonte, a reflexão promove todo o preparativo mental que se expressará como arte ou produzirá ciência. E como horizonte, a filosofia recolhe da arte ou da ciência seu material abstrato em que busca aprofundar seu significado, isto é, alcançar seu entendimento/compreensão.

Por sua vez, a filosofia se divide em três temas: ontologia, fenomenologia e lógica. A ontologia compreende todo o esforço sobre a concepção do ser. Através da ontologia a filosofia se aproxima da ciência, principalmente numa perspectiva cosmológica. A questão do ser, seja o ser em geral, seja o ser em particular(ser humano, ser histórico, ser natural, etc), é problematizado. Como reflexão, ela se desdobra na divisão das ciências: ciências naturais, ciências sociais/humanas e ciências técnicas/aplicadas.

Já fenomenologia problematiza a questão inversar, não é o ser, em seu sentido próprio, mas a manifestação do ser ao sujeito que é a preocupação central. Se divide em fenomenologia pessoal (psicologia), fenomenologia social (ideologia) e fenomenologia cultural (etnologia).

A lógica aqui, compreendida em sentido amplo, tal como Aristóteles, engloba todas as indagações filosóficas que tratam da relação entre aparência e essência. Assim, se dividiria em gnosiologia(teoria do conhecimento), epistemologia (teoria da ciência) e hermenêutica/lingüística (teoria da linguagem).


ESQUEMA DE COSMOLOGIA(filosofia)

1 Ontologia:
1.1 ciências naturais.
1.2 ciências sociais/humanas.
1.3 ciências técnicas/aplicadas.

2 Fenomenologia:
2.1 Psicologia (fenomenologia pessoal)
2.2 Ideologia (fenomenologia social)
2.2.1 Estética (arte - etnologia)
2.2.2 Ética (moral - psicologia)
2.2.3 Política (história – em si - ideologia)
2.3 Etnologia (fenomenologia cultural)
2.2.1 Material: construções, produções, linguagens, etc.
2.2.2 Espiritual: antropomórfica|morfológica|antropológica ( artes | ciência | filosofia )
2.2.3 Moral: (costumes, tradições, etc)

3 Lógica
3.1 Gnosiologia (teoria do conhecimento. Como conhecemos?)
3.2 Epistemologia (teoria da ciência. Como o conhecimento é verdadeiro?)
3.3 Etimologia (teoria das palavras)
3.3.1 Estilística(oratória) . A forma de expressão do pensamento.
3.3.2 Linguística. O conteúdo da expressão do pensamento.
3.3.3 Hermenêutica. A forma de interpretação do conteúdo.

Marx e Nietzsche em perspectiva

sábado, 3 de outubro de 2009

Feuerbach foi o primeiro filósofo a alcançar uma sólida vitória sobre Hegel que vigorava como filosofia dominante na Alemanha do século 19, muitas vezes quase que sinônimo da própria filosofia, como as vezes Marx a trata. Ele inverte a relação entre a idéia com solução diretas, simples, mas irresistíveis, como quando afirma que a maçã vêm antes da idéia de maçã. Com isso, Feuerbach coloca uma sólida estaca de materialismo no coração da "filosofia do futuro", não foi muito além disso, mas teve o mérito de decepar as raízes do hegelianismo em particular e do idealismo em geral, e de abrir as portas da filosofia para uma nova forma de filosofar que nos daria dois exemplares: Marx e Nietzsche.

Nietzsche e Marx tiveram uma formação diferente. Enquanto Nietzsche é um herdeiro de Shopenhauer, Marx é um herdeiro do Hegel, mas claramente o neohegelinismo. O neohegelismo foi uma tendência de esquerda do hegelinismo oficial da época, em oposição a tendência conservadora. A primeira ressaltava os primeiros textos de Hegel e sua dialética idealista-histórica, por se partidarizar a favor da transformação. E os conservadores se apegam aos últimos textos, mais voltados para a exaltação do Estado e da religião. Marx era um neohegeliano, um democrata radical, até se envolver e se ver envolvido com a luta de classes, o empurrando ao comunismo pela via política, e teoricamente, através de Feuerbach, assumindo o materialismo.

Nietzsche vem da filologia centrada no estudo da cultura clássica grega. Filosoficamente estava alinhado a Shopenhauer, isso significava não só se opor ao hegelianismo mas sequer reconhecê-lo, uma vez que Shopenhauer se apresentava como o opositor direto da filosofia hegeliana. No entanto, o hegelianismo enquanto filosofia oficial, tornava inviável uma alienação absoluta de Nietzsche sobre a dialética. E de fato, percebemos esse conhecimento na temática senhor e escravo que vemos por vezes Nietzsche tratar. No entanto, também por influência da grande notoriedade da crítica de Feuerbach sobre Hegel, mas também por nunca ter sido partidário do idealismo em razão de sua herança shoppenhauriana, Nietzsche também era, a seu modo um materialista ou um anti-idealista.


O SENHOR E O ESCRAVO

Há, portanto, temas em comum entre Nietzsche e Marx com questões que tentam cada um a seu modo resolver: reconstruir uma nova filosofia baseada no materialismo, uma filosofia alemã materialista. E como superar as questões que não mais seriam aceitas na perspectiva hegeliana. A questão era, como responder ao fim do hegelianismo e a provocação de Feurbarch.

Nietzsche, com sua filologia, shoppenhaurismo e sua posição social, estava marcadamente influenciado por uma visão elevada da aristocracia, somada ao êxito da aristocracia prussiana vigente de ter alcançado a sonhada unificação alemã, dessa forma dando importância a uma classe reconhecidamente decadente: aristocracia rural. Enquanto shoppenhauriano, estava ligado a uma filosofia mais psicológica e estética (artes).

Marx vem diretamente do hegelianismo e do radicalismo neohegeliano. Ambos associados diretamente com a revolução francesa, isto é, uma filosofia profundamente histórica e política.

O tema senhor-escravo é trabalhado por ambos de modo diferente, e aparece como um enigma a ser decifrado pela perspectiva materialista, uma vez que o idealismo caíra em desuso.

Em Hegel o senhor domina o escravo pela vitória, e através dela garante seu mérito de senhor. E o escravo, em sua condição de escravo, trabalha e produz tudo que necessita o senhor, o transformando em dependente. O dominador que é agora dependente de seu dominado, inverte a posição, criando as condições dialéticas da rebelião do escravo. Em Hegel a tensão se sintetiza criando uma nova tensão, mas num patamar mais elevado, diferente e específico. Porém, esse jogo dialético termina no saber absoluto. O senhor e o escravo é para Hegel apenas um momento do espírito no mundo, e apenas uma exteriorização da idéia dialética.

Para Marx, sua proposição materialista se trata de retirar o invólucro formal e considerar o seu conteúdo concreto, a sociedade de classes atual definia que o senhor era o burguês e o escravo era o proletariado. Depois, sair de uma posição teórica para prática, abandonando a solução mística de que o pensamento enquanto espírito que se projeta no mundo, para uma nova dialética onde o pensamento é apenas o real traduzido para a cabeça. E por fim abandonar a solução contemplativa para uma transformadora, agora a questão não era mais interpretar, mas transformar o mundo. Dado a precedência do material sobre o ideal.

Para Nietzsche, a tensão entre o senhor-escravo é ela mesma mal formulada. Para ele não há uma sublimação dialética, aí estaria a falha de Hegel. Assim como Heráclito, acredita que a tensão é insolúvel, se reproduz continuamente como um ciclo, aí entra o conceito de eterno retorno, e nele o anti-historicismo de Nietzsche. Para ele, essa sublimação é apenas mais uma faceta da redenção cristã, que ele combate como cultura decadente. A visão cíclica da história era típica dos gregos clássicos, portanto, parte da sua formação filológica. O anti-idealismo de Nietzsche combate já no seu ninho, em Platão, vendo nele as tendências de negação do corpo do cristianismo.

Para Nietzsche, seu materialismo é natural, ele é anti-idealismo enquanto afirmação do corpo em oposição ao espírito, enquanto para Marx seu anti-idealismo é a afirmação da prática em oposição a teoria. Ambos não renegam o espírito ou a teoria, assim como Hegel não negava a prática e o corpo, apenas invertem a prevalência ou o fundamento.


A VONTADE DE PODER E A LUTA DE CLASSES

Para Marx, o conflito senhor-escravo seria uma mera mistificação filosófica da luta de classes numa sociedade de classes concreta, real, a sociedade burguesa. Resultado de um antagonismo imanente a qualquer sociedade de classes. Seguindo a tese da superação dialética, essa luta de classes culminaria em uma ditadura do proletariado, um Estado que aboliria a sociedade de classes, e assim aboliria a se mesmo, já que entende o Estado apenas como reflexo de uma sociedade de classes.

Assim, Nietzsche, saído das questões shoppenhauriana, incursiona sobre a filosofia tratando sobre a vontade, isto é, sobre a psicologia. Essa psicologia de Nietzsche trata não indivíduos, mas civilizações, e a arte tem um papel relevante no trato dessa psicologia que define o tipo de moral e estética de cada civilização. Dessa forma, a reflexão sobre a vontade baseada em Shoppenhauer(arte, vontade) e sua formação filológica(etnológica, cultural-social), se inicia na sua hipótese de que o apogeu do mundo estava marcado pela harmonia das tensões entre o dionisíaco(embriaguês) e o apolíneo(pureza), e que Sócrates, ao tentar expulsar o trágico na cultura grega, se torna o símbolo da decadência grega.

Logo em seguida, quando a temática da luta de classes entra em suas obras (senhor-escravo), a problemática da vontade assume uma contribuição própria de Nietzsche. A antropologia nietzscheana afirma que o homem é vontade, seguindo Shoppenhauer, mas a vontade central que define o homem seria a vontade de poder(potência). Poder aqui assume como poder político, dominação, é social. Em Marx, já socialista, senhor e escravo são apenas figurações de classes sociais, não conservam uma perspectiva antropológica, individual. Nietzsche não só conserva, como se opõe a qualquer tradução pós-individual da questão, que para ele é mero instinto de rebanho: igualando o cristianismo, a democracia e o socialismo.


PONTOS EM COMUM DE MARX E NIETZSCHE

No entanto, surpreendentemente, Marx e Nietzsche se identificam em um ponto: criticam a sociedade vigente. Marx em nome de uma sociedade nova e Nietzsche em nome de uma sociedade antiga. O ponto em que Marx e Nietzsche concordam em criticar é a democracia e o socialismo, ainda que por razões diferentes.

A questão em base, filosoficamente, é o romantismo. O romantismo no campo político foi o populismo, o vulgarismo sentimental. Nesse ponto, ambos são críticos. A diferença é que Marx identifica a democracia como uma política pueril, ilusória e limitada; e Nietzshce a vê, numa alemanha aonde a democracia haviam avançado bem mais, como símbolo da decadência dos valores aristocráticos. Isso apenas descreve de um lado um fato, porque obviamente a democracia tomava o espaço da aristocracia, mas também levava com consigo uma crítica e uma defesa do elitismo.

Enquanto crítica ao socialismo Marx apresenta o comunismo, uma superação dos limites do socialismo. Já Nietzsche, como não acredita na superação, apresenta uma posição paradoxal, elogia o passado, mas o vê condenado: isto é, a decadência é sintomática. E assim, o mundo seria constantemente destruído e reconstruído, como tendências cíclicas entre aristocracia e democracia.

Aparentemente, só o conceito de vanguarda conseguiu realizar a síntese entre as tendências transformadoras(Marx) e transvaloradoras(Nietzsche) em realidade. Lênin a realizou ao menos conceitualmente, como partido de vanguarda, assimilando o discurso incendiário de Nietzsche ao cientificismo de Marx. Na prática, o Estado pós-revolucionário russo estava condenado desde o início cientificamente ou moralmente? Ou a revolução, uma vez que tenha interrompida a sua marcha social, assume sempre uma inflexão autodestrutiva?

Essas são questões que não cabem nesse despretensioso ensaio...

CIÊNCIA DE SI DA SOCIEDADE, UMA PROBLEMATIZAÇÃO...

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

AS CIÊNCIAS SOCIAIS COMO PROBLEMÁTICA

Quem fizer uma panorâmica sobre ciências sociais perceberá o impasse dessa ciência, a olhando no todo, ela está longe de ter a articulação das ciências naturais. A divisão das ciências naturais em física, química e biologia, completam uma tão bem realizada coerência lógica que nem parece que foi estruturada espontaneamente pelo trabalho acumulado de pesquisa. Já as ciências sociais se dividem em economia ou economia política, pode se disser ainda política econômica, jurisprudência, psicologia, sociologia, etnologia, antropologia, alguns incluiriam semiologia, historia, etc. Cada uma dessas ciências se subdivide ainda em várias abordagens ou escolas, que vivem tranquilamente em seu isolamento imperturbável.  Se entendida como ciências humanas, o leque é bem mais abrangente.

Não se pode aristotelicamente axiomatizar[1] por mera comparação que as ciências sociais estão ainda imaturas por ter uma diversidade desarticulada em oposição às ciências naturais. Pode se afirmar que isso se dá pela própria “natureza” do conteúdo, que seria arbitrário acreditar que as ciências sociais(ou humanas) devem por mera comparação e sem nenhuma explicação justificada, ter a mesma articulação das ciências naturais.

Assim, com relação a isso não irei considerar. Só considerarei apenas que essa desarticulação pode ser problematizada se levantando várias hipóteses. A hipótese que levantarei aqui é a da separação tipicamente moderna da pesquisa da natureza e da pesquisa na sociedade, e a possibilidade contemporânea, dado os avanços das ciências naturais, de fazer a reintegração das ciências naturais e humanas.

UMA BREVE GENEALOGIA SOBRE O CASO

Numa breve genealogia(ou arqueologia), vemos que dos gregos se organizava uma visão da sociedade como extensão da natureza, mas também certa camada que era estranha a essa. Partindo da própria conceituação de natureza que os gregos tinham influenciado pelo nível científico de sua época, a sociedade tinha uma nomos(norma) que se diferenciava da fisis(natureza). Na natureza se encontravam as “leis da natureza” que se impunham aos homens como uma lei férrea, interna(instinto, paixões, etc) e externa(ordem, estrutura observável, correção), na sociedade se encontravam as “leis sociais” determinadas em acordo pelos homens ou pela vontade dos homens.  Essa dicotomia era problematizada como a divisão entre necessidade e contingência. As leis naturais eram necessárias(ou seja, tinham que ser), as leis humanas eram contingentes(podiam ser). Todo trabalho filosófico sobre a sociedade se obstinava na tentativa de criar leis(normas) que copiasse a perfeitas leis da natureza.

Adiante veio a Idade Média que ou era saudosismo mecânico heleno-romano(principalmente a cúpula letrada da Igreja Católica), ou era um tacanho misticismo cristão para as massas. Com o desenvolvimento científico moderno, a questão retorna.  Na modernidade, a ciência natural se desenvolve com um impressionante avanço, seja pelas condições materiais que permitiram melhores condições de pesquisa, seja pela pressão das demandas materiais que representavam os interesses fabris da classe burguesa em ascensão. No empirismo-iluminismo se desenvolveu uma visão naturalista, que buscava explicar as relações humanas como natureza humana através das paixões. No humanismo-racionalismo se buscava justificar as relações humanas mais próximas da ordem do pensamento, mas também como expressão da natureza das coisas.

Em Kant, essas duas correntes se unem na dicotomia clássica que define claramente o impasse moderno entre as ciências naturais e as ciências sociais. Kant, percebendo a impossibilidade de aplicar as ciências naturais diretamente nas ciências humanas(sociedade), tentada anteriormente, a divide em dois mundos, a razão pura e a razão prática. Na razão pura o homem encontra as relações necessárias, naturais. Já na razão prática, o homem cria suas leis por viver em sociedade, e assim, na contingência, ou como diz ele, na liberdade, realiza a sua ética individualmente e sua política socialmente. Toda ciência moderna acaba caindo nos colos de Kant, sobretudo no neokantismo que foi a aplicação propriamente dita das teses de Kant nas ciências humano-sociais. Kant tentou criar uma ponte entre seus dois mundos através da “crítica da faculdade de julgar” aonde através da estética/arte o homem criava uma ponte entre a razão pura e a razão prática.

Após Kant veio o romantismo, aonde a arte era o centro. Hegel quis superar essa dicotomia com a dialética idealista como critica ao sentimentalismo romântico arbitrário, mas que caminhava dentro das cabeças. Essa dialética vultosa com sua grande estruturação lógica teve que adaptar o conteúdo dentro de sua caixa(portanto, os fatos foram negligenciados para garantir a coerência), de outro lado, não era suficiente em seu espiritualismo para dar explicações satisfatórias para a realidade social. Mas deixou como legado a dialética moderna.

Em Marx há vários esforços de tentar integrar as ciências naturais com as ciências humanas, sua maior contribuição foi a conceituação de economia como relação do homem com a natureza. Ao encontrar isso, ele desvenda o caráter antagônico do homem com a natureza através de sua própria identidade com ela. O homem, ao ter o poder de criar os seus próprios meios de produção,  portanto, de modificar o meio ambiente e instrumentalizá-lo para ele, criou uma modificação específica que as ciências humanas buscam estudar.

A RELAÇÃO HOMEM E NATUREZA: DA ECOLOGIA A ECONOMIA

Antes de tudo, homem aqui é o conjunto dos homens, é a espécie homo-sapiens. Como tal e antes de tudo, o homem é um ser natural. Portanto, a separação idealista do homem com a natureza, se preocupando unilateralmente em se apoiar nos antagonismos entre ambos, é equivocada. O homem é um ser natural como qualquer ser, qualquer outra afirmação cairia na teologia ou misticismo. Mas como se dá a diferença específica que funda o homem como uma ciência própria para si mesmo? A relação do homem com sua natureza interna(organismo natural), não pode ainda ser mudadas por ele(com a genética e a pesquisa do genoma, isso já é possível), mas a relação do homem com a natureza externa, ou seja, meio ambiente natural, foi transformada pelo homem desde o dia em que passou a criar as condições materiais de sua existência.

Todos os seres vivos têm uma relação estudada na ecologia, como relação entre espécie e ambiente, essa relação determinou numa longa evolução genética através da luta e adaptação, a transformar a própria constituição ôntica dos seres, ou seja, formou e continua a formar as espécies tal como elas são. A escala de tempo da evolução natural é imperceptível a qualquer animal, pois estamos falando de milhões de anos. E como tal o homem é um animal, resultado de um tronco genético que culminou no ser que somos. E como qualquer animal tem uma relação natural entre espécie e meio, aonde a espécie intervém no meio sem modificá-lo. Quando o homem passou a modificar esse meio, domesticando animais, plantando, canalizando plantações, controlando o fogo, em suma, dominando a natureza paulatinamente, passou a fazer história, um tronco de acontecimentos que ocorre em escala de séculos e que determina as relações entre a natureza e o homem, e também a relação entre os homens:  forma social. Aqui Marx rompeu os diques da sociologia neokantiana, o homem era enfim restituído a sua mãe natureza.

A PROBLEMÁTICA DAS CIÊNCIAS DA PSIQUÊ

Marx desvendou a raiz natural da sociedade humana, e assim, abriu a nossa percepção para perceber a sociedade tanto como idêntica como distinta da natureza, essa distinção não rompia com a natureza, o homem era uma esfera dentro de uma esfera natural. O homo-sapiens se transformou em humanidade fundando a história através de uma relação transformadora com a natureza.

Mas falta ainda o caminho oposto, desvendar a raiz social da natureza humana. O primeiro trajeto rompeu com a problemática identidade e diferença entre natureza e sociedade, e deu uma base dialética real, historicamente identificável, na relação do homem com a natureza. O segundo trajeto romperá com todas as divisões e pseudociências sociais. O primeiro é o conteúdo, o segundo é a forma.

A psicologia é, entre as ciências, a mais especulativa entre todas, se organiza entre suas abordagens como um inegável sistema de dogmas. Enquanto terapia, ela é uma técnica curativa mais ou menos eficiente, enquanto ciência, ela é um dogma.

O caminho que eu vejo para se abrirem as fendas entre o comportamento/sentimento humano, visto socialmente como psicologia, é o estudo articulado da fisiologia, ou melhor, é o estudo do sistema endócrino relacionado ao sistema nervoso. O sistema nervoso trabalha como contato do homem com o meio, enquanto o sistema endócrino trabalha as respostas a esses estímulos. A psicologia em geral busca catalogar em diversos níveis como esse estímulo-resposta se comporta em cada situação social, desconhecendo sua fundamentação endócrino-nervosa, dessa forma, buscando especular uma teoria que responda coerentemente as suas pesquisas.

Se partirmos da hipótese kantiana, aonde no nível prático existe outra dimensão,  a liberdade se opondo a necessidade(natureza), então a psicologia é uma ciência possível. Mas, se admitirmos o homem como natural, integralmente natural mesmo em suas peculiaridades, então a psicologia é no mínimo uma ciência datada. Mais uma vez retorna a questão, enquanto prática profissional ela é uma técnica curativa para certos fenômenos psicossomáticos, enquanto ciência ela é um dogma ou mesmo mera especulação. Portanto, a psicoterapia e a psiquiatria se opõem como técnica curativa e ciência. A psiquiatria nem mesmo é uma ciência ou técnica propriamente dita, mas uma ciência técnica voltada para aplicar determinados medicamentos frente a determinados sintomas, enquanto tal é uma mera ramificação da aplicação técnica da ciência natural da biologia.

A problematização da psicologia se dá por sua natureza social e sua técnica curativa, é a técnica ela mesma social: a conversa. Aqui não busco analisar como ela é possível e representa certa desagregação social que gera os modernos fenômenos psicopatológicos, e por outro lado, de como elas tinham outras personificações em outras sociedades, tal como o confessionário, o shaman, etc. A fisiologia pode representar a base teórica que formalmente explica as interações dos conteúdos sociais determinados e seus reflexos.

A fisiologia, entendida aqui como relação entre neurologia e endocrinologia, expressa a possibilidade de identificar a causa de todos os fenômenos comportamentais, emocionais e cognitivos, mas para a psicologia restaria ainda o campo para organizar a técnica curativa, tal como a medicina é a técnica curativa baseada na biologia em geral. Em outros termos, a terapia deverá se integrar a medicina como forma de intervenção associada à medicação e cirurgia. Essa saída da psicologia das ciências sociais para as ciências naturais será a reintegração da psiquiatria com a psicologia, que como tal se tornarão apenas em procedimentos médicos determinando se a intervenção é cirúrgica, medicamentosa ou terapêutica. Assim, o terapeuta, o ex-psicólogo, psicoterapeuta, etc. se tornarão um profissional especializado da ciência técnica da medicina, sua fundamentação teórica será radicalmente rasgada, se extinguirá todas as seitas, e o trabalho científico do terapeuta se resumirá a somente aplicar a meios terapêuticos em base dos resultados dos estudos endócrino-neurológico.

SOBRE AS DEMAIS CIÊNCIAS SOCIAIS E A FILOSOFIA

Reconhecendo a forma natural em base de toda forma social, o estudo das ciências humanas se restringirá a relacionar forma e conteúdo. Como o material empírico das ciências humanas é monumental, a aplicação dessa dialética oferece ainda grande vida à específica ciência humana. A problemática permanece porque o pesquisador das ciências humanas não tem formação em ciências naturais. E essa base é fundamental. Seria importante que futuramente para alguém adentrar na ciência social, tenha formação geral em ciência natural, assim como para se entrar na ciência técnica tenha que ter as duas. Um desenvolvimento da educação mais célere talvez alcance isso.

E quem sabe, para ser um estudante de filosofia, ser preciso ter formação em todas as ciências. Só assim a pretensão universalista do filósofo terá um conteúdo concreto.

O que quis demonstrar aqui é como o trabalho de superação da dicotomia natureza e sociedade por vias científicas superam as dicotomias entre ciência natural e ciência humana, e por fim, como essa superação contribuiria para uma melhor ciência humana, ou seja, uma real ciência humana, não meramente uma acúmulo de material empírico conectado por especulações diversas.

Mas sinceramente me acho devidamente convencido de que as verdadeiras barreiras para uma ciência social são sociais, o fato de a ciência natural ter se desenvolvido tanto como nunca, se deve as condições de materialidade dessa ciência, sua própria pesquisa é imediatamente útil como  tecnologia, medicina, etc. dentro do modo de produção vigente. Mas vivendo numa sociedade alienada aonde o próprio trabalho, relação em si do homem e a natureza, é alienado, se torna quase impossível seguir adiante contra a separação, pois a separação é real. O trabalho de ciência social portanto deve ser crítica, de qualquer outra forma cairá em especulações dogmáticas inúteis, pois as condições de realização e necessidade de uma ciência social só se daria em uma sociedade aonde suas relações entre si e sua relação com a natureza fossem transparentes, e não mistificadas pela mercadoria, dinheiro e suas formas derivadas. 

 

[1] Aristóteles em sua ontologia(conhecida também como metafísica), ao afirmar que todo ser(efeito) tem uma causa anterior, e por outro lado, reconhece como absurda a possibilidade que a sucessão de causas recue ao infinito. Dessa forma faz uma das coisas que tratou em outro livro como sofisma, uma “petição de princípio”.