AS PREMISSAS DA FILOSOFIA
A filosofia contemporânea, ou se preferirem, Marx e Nietzsche, ou ainda, Hegel e Schopenhauer, seguiriam uma relação de herança ou intimidade com a ciência ou a arte. Essa aproximação nasce na erosão da metafísica medieval, isto é, o surgimento da modernidade na filosofia, no apocalipse da escolástica: a cultura filosófica medieval.
A filosofia medieval tinha se resolvido no apogeu do cristianismo como teologia, na problematização entre fé e razão. Cada teólogo, antes um sacerdote cristão, e antes disso um exemplar do mundo feudal, respondia a modo próprio a pergunta. Só para citar os mais conhecidos: para Santo Agostinho, fé e razão se esclareciam mutuamente (completariedade); para São Tomaz de Aquino, eram partes que unidas formavam a teologia como caminho a Deus. Ainda outros que defendia a superioridade da fé ou da razão, ou a total irrelevância da razão Duns Escoto. Este último por sua vez, teve o mérito de desligar a filosofia da religião.
Os primeiros modernos tentavam por sua vez emancipar o pensamento de seu atrelamento a religião, ainda que com toda a precaução de não irritar a santa inquisição ou mesmo apenas desagradar a autoridade da Igreja. A burguesia emergente elegia a razão acima da fé, sem relegar a fé. A ciência era o seu argumento, ainda que em um sentido próprio. A filosofia, portanto, devia agora não mais se sustentar na religião, mas na ciência. Essa filosofia panfletária a favor da razão/ciência/experiência formou o primeiro passo frente à crise da filosofia teológica medieval. Todo esse movimento passou pelo humanismo, o empirismo, o racionalismo, o idealismo, ou em termos gerais, o iluminismo, etc.
No entanto, uma reação a essa movimento cientificista, utilitarista, racionalista, em certos termos, calculista, se registrou como romantismo. O romantismo foi em parte uma volta ao catolicismo(teologia medieval), mas não uma volta pura. Não era mais o cristianismo a autoridade, mas o sentimentalismo que ele representava. Enquanto o iluminismo era ligado a ciência, o romantismo se ligava a arte. Enquanto o iluminismo se ligava ao individualismo objetivista, uma tendência emergente; já o romantismo resgatou o nacionalismo popular subjetivista. O romantismo, por sua vez, fora gestado dentro do próprio iluminismo, nas idéias de seu precursor: Rousseau.
Assim, as tendências cientificistas-intelectualistas e artísticas-sentimentalistas se bifurcaram na filosofia, e em Hegel e Schopenhauer essa divisão é bem nítida. Hodiernamente, as grandes expressões filosóficas dessas duas tendências são: Marx e Nietzsche. Sem dúvida, não foram poucos os que tentaram sintetizar os dois pensadores, e rearticularem o ontologismo da cienciência com o fenomenalismo das artes.
O RENASCIMENTO CONCEITUAL DO COSMOS
A cosmologia é prescrita pelos comentaristas de filosofia em geral como uma fase dos pré-socráticos, para aqueles que buscavam uma explicação e entendimento da physis(natureza ou universo) a partir de um princípio(arché) totalizante. Era a busca de entender o todo sob uma explicação racional. A cosmologia foi a primeira tendência pré-socrática, foram os parteiros da filosofia. Foram eles Tales de Mileto, Anaxágoras e Anaxímenes. Eram chamados cosmólogos apenas por que buscavam uma causa que explicasse de certo modo a ordem de todas as coisas, a essa causa chamavam ‘arché’ (princípio) e a esse todo chamavam ‘physis’ (natureza).
Mas o que é o cosmos senão a antítese do kaos? Cosmos significa ‘ordem’ no sentido de organização. Kaos é a desordem, o confuso. No entanto, o sentido essencialista ou concreto de cosmologia é hoje totalmente inviável. Se as religiões orientais nos reportam um certo sentido de ‘cosmos’ como uma expressão subjetiva em relação ao ‘universo’, ainda que se apropriando de um léxico grego, é porque corrompem o conceito do mesmo modo que o cristianismo corrompeu o conceito de ‘alma’, ‘virtude’ e ‘bem’. A corrupção aqui não é apenas uma interpretação semântica diversa do original, mas uma degeneração semântica. O sentido original é sepultado e só é resgatável no trabalho de um arqueólogo.
Cosmologia que aqui eu proponho, é mais radicalmente ligada a sua gênese etmológica. É o logos do cosmos, isto é, o estudo da ‘ordem’. No entanto, a ordem não tem sentido objetivo, seja natural ou histórico. Não é natural, porque a natureza não tem uma ‘ordem’, ela é um resultado de acasos que formam por adaptação e luta, a progressiva carga genética das espécies e a mobilização dos corpos celestes, etc. Não é social, porque a ‘ordem’ não vai além do que um preconceito descaradamente ideológico e que expressa o interesse conservador de um determinada classe dominante. A ‘ordem’ ou o cosmos só pode ser um produto do trabalho humano, um esforço humano de organizar o seu mundo para si.
A cosmologia ou o estudo da ordem, em filosofia, seria a tentativa de sistematizar todo o saber humano, toda produção espiritual. De modo a tentar articulá-la de modo compreensível. Ela se diferencia de cosmos, que é uma expressão de algo que suponha ter ou se define como ordem.
A COSMOLOGIA
Para uma cosmologia possível, ela teria que absorver todo o saber humano, não só de modo a alcançar peças em que formaria sua cosmologia (não confundir com cósmica), mas de modo a formar os instrumentos em que se operaria essa formação. Dessa forma, os sistemas ou a cosmologia, estaria sempre fadado ao esforço intelectual mais laborioso e ao mais breve e frágil condicionamento histórico; pois seria permanentemente reconstruído a cada progresso das ciências.
Por outro lado, a cosmologia tem vários graus de detalhamento. Em geral, como seu objetivo é organizar toda a produção espiritual humana de modo logicamente articulado, teria sempre uma longevidade maior do que a mobilização de seus átomos teóricos.
A tese cosmológica deve então ter duas vias, uma estrutural outra histórica. Enquanto estrutural, ela organiza o saber como um retrato. Mais desenvolve essa estrutura como um desdobramento histórico.
A TESE COSMOLÓGICA PROPOSTA
A produção espiritual se divide em três momentos: antropomorfismo, morfologismo, antropologismo. Antropomorfismo é fase mítica aonde o homem se expressa de modo caótico frente a sua civilização embrionária, expressando no seu entendimento do mundo as formas humanas em que se reconhece. Assim, a natureza é representada como objetividade projetada de sua subjetividade. Deuses que representam sentimentos humanos e assumem semelhança humana, etc. O morfologismo é a fase em que se constitui a propriedade privada, assim, as expressões espirituais da fase arcaica é mobilizada e institucionalizada como expressões de poder de grupos sociais, sobretudo como monarcas-divinizados. No antropologismo, o pensamento retorna ao homem, mas de modo desmistificador. Essa é a fase atual. Na fase antropomórfica, o pensamento se confunde com formas embrionárias de arte, ciência e filosofia. Na fase morfológica, o pensamento religioso e secular se separam. Ocorrendo conflito e culminando na teologia católica que submete a razão à fé, e no seu sucessor pré-moderno, o iluminismo, que submete a fé a razão. Na perspectiva antropológica, a fé é apenas uma expressão do homem, e não uma instituição, servindo apenas para exemplificar uma cultura e uma percepção superticiosa da vida. A fé é apenas uma expressão individual de um credo de uma certa igreja, é um tema para historiadores e sociólogos.
Toda produção espiritual humana se divide em três categorias: arte, ciência e filosofia. A filosofia é a fonte e o horizonte de todo o saber humano e sua essência específica é a reflexão, essa é sua identidade e diferença. Como fonte, a reflexão promove todo o preparativo mental que se expressará como arte ou produzirá ciência. E como horizonte, a filosofia recolhe da arte ou da ciência seu material abstrato em que busca aprofundar seu significado, isto é, alcançar seu entendimento/compreensão.
Por sua vez, a filosofia se divide em três temas: ontologia, fenomenologia e lógica. A ontologia compreende todo o esforço sobre a concepção do ser. Através da ontologia a filosofia se aproxima da ciência, principalmente numa perspectiva cosmológica. A questão do ser, seja o ser em geral, seja o ser em particular(ser humano, ser histórico, ser natural, etc), é problematizado. Como reflexão, ela se desdobra na divisão das ciências: ciências naturais, ciências sociais/humanas e ciências técnicas/aplicadas.
Já fenomenologia problematiza a questão inversar, não é o ser, em seu sentido próprio, mas a manifestação do ser ao sujeito que é a preocupação central. Se divide em fenomenologia pessoal (psicologia), fenomenologia social (ideologia) e fenomenologia cultural (etnologia).
A lógica aqui, compreendida em sentido amplo, tal como Aristóteles, engloba todas as indagações filosóficas que tratam da relação entre aparência e essência. Assim, se dividiria em gnosiologia(teoria do conhecimento), epistemologia (teoria da ciência) e hermenêutica/lingüística (teoria da linguagem).
ESQUEMA DE COSMOLOGIA(filosofia)
1 Ontologia:
1.1 ciências naturais.
1.2 ciências sociais/humanas.
1.3 ciências técnicas/aplicadas.
2 Fenomenologia:
2.1 Psicologia (fenomenologia pessoal)
2.2 Ideologia (fenomenologia social)
2.2.1 Estética (arte - etnologia)
2.2.2 Ética (moral - psicologia)
2.2.3 Política (história – em si - ideologia)
2.3 Etnologia (fenomenologia cultural)
2.2.1 Material: construções, produções, linguagens, etc.
2.2.2 Espiritual: antropomórfica|morfológica|antropológica ( artes | ciência | filosofia )
2.2.3 Moral: (costumes, tradições, etc)
3 Lógica
3.1 Gnosiologia (teoria do conhecimento. Como conhecemos?)
3.2 Epistemologia (teoria da ciência. Como o conhecimento é verdadeiro?)
3.3 Etimologia (teoria das palavras)
3.3.1 Estilística(oratória) . A forma de expressão do pensamento.
3.3.2 Linguística. O conteúdo da expressão do pensamento.
3.3.3 Hermenêutica. A forma de interpretação do conteúdo.