RSS

CIÊNCIA DE SI DA SOCIEDADE, UMA PROBLEMATIZAÇÃO...

Quinta-feira, 25 de Dezembro de 2008

AS CIÊNCIAS SOCIAIS COMO PROBLEMÁTICA

Quem fizer uma panorâmica sobre ciências sociais perceberá o impasse dessa ciência, a olhando no todo, ela está longe de ter a articulação das ciências naturais. A divisão das ciências naturais em física, química e biologia, completam uma tão bem realizada coerência lógica que nem parece que foi estruturada espontaneamente pelo trabalho acumulado de pesquisa. Já as ciências sociais se dividem em economia ou economia política, pode se disser ainda política econômica, jurisprudência, psicologia, sociologia, etnologia, antropologia, alguns incluiriam semiologia, historia, etc. Cada uma dessas ciências se subdivide ainda em várias abordagens ou escolas, que vivem tranquilamente em seu isolamento imperturbável.  Se entendida como ciências humanas, o leque é bem mais abrangente.

Não se pode aristotelicamente axiomatizar[1] por mera comparação que as ciências sociais estão ainda imaturas por ter uma diversidade desarticulada em oposição às ciências naturais. Pode se afirmar que isso se dá pela própria “natureza” do conteúdo, que seria arbitrário acreditar que as ciências sociais(ou humanas) devem por mera comparação e sem nenhuma explicação justificada, ter a mesma articulação das ciências naturais.

Assim, com relação a isso não irei considerar. Só considerarei apenas que essa desarticulação pode ser problematizada se levantando várias hipóteses. A hipótese que levantarei aqui é a da separação tipicamente moderna da pesquisa da natureza e da pesquisa na sociedade, e a possibilidade contemporânea, dado os avanços das ciências naturais, de fazer a reintegração das ciências naturais e humanas.

UMA BREVE GENEALOGIA SOBRE O CASO

Numa breve genealogia(ou arqueologia), vemos que dos gregos se organizava uma visão da sociedade como extensão da natureza, mas também certa camada que era estranha a essa. Partindo da própria conceituação de natureza que os gregos tinham influenciado pelo nível científico de sua época, a sociedade tinha uma nomos(norma) que se diferenciava da fisis(natureza). Na natureza se encontravam as “leis da natureza” que se impunham aos homens como uma lei férrea, interna(instinto, paixões, etc) e externa(ordem, estrutura observável, correção), na sociedade se encontravam as “leis sociais” determinadas em acordo pelos homens ou pela vontade dos homens.  Essa dicotomia era problematizada como a divisão entre necessidade e contingência. As leis naturais eram necessárias(ou seja, tinham que ser), as leis humanas eram contingentes(podiam ser). Todo trabalho filosófico sobre a sociedade se obstinava na tentativa de criar leis(normas) que copiasse a perfeitas leis da natureza.

Adiante veio a Idade Média que ou era saudosismo mecânico heleno-romano(principalmente a cúpula letrada da Igreja Católica), ou era um tacanho misticismo cristão para as massas. Com o desenvolvimento científico moderno, a questão retorna.  Na modernidade, a ciência natural se desenvolve com um impressionante avanço, seja pelas condições materiais que permitiram melhores condições de pesquisa, seja pela pressão das demandas materiais que representavam os interesses fabris da classe burguesa em ascensão. No empirismo-iluminismo se desenvolveu uma visão naturalista, que buscava explicar as relações humanas como natureza humana através das paixões. No humanismo-racionalismo se buscava justificar as relações humanas mais próximas da ordem do pensamento, mas também como expressão da natureza das coisas.

Em Kant, essas duas correntes se unem na dicotomia clássica que define claramente o impasse moderno entre as ciências naturais e as ciências sociais. Kant, percebendo a impossibilidade de aplicar as ciências naturais diretamente nas ciências humanas(sociedade), tentada anteriormente, a divide em dois mundos, a razão pura e a razão prática. Na razão pura o homem encontra as relações necessárias, naturais. Já na razão prática, o homem cria suas leis por viver em sociedade, e assim, na contingência, ou como diz ele, na liberdade, realiza a sua ética individualmente e sua política socialmente. Toda ciência moderna acaba caindo nos colos de Kant, sobretudo no neokantismo que foi a aplicação propriamente dita das teses de Kant nas ciências humano-sociais. Kant tentou criar uma ponte entre seus dois mundos através da “crítica da faculdade de julgar” aonde através da estética/arte o homem criava uma ponte entre a razão pura e a razão prática.

Após Kant veio o romantismo, aonde a arte era o centro. Hegel quis superar essa dicotomia com a dialética idealista como critica ao sentimentalismo romântico arbitrário, mas que caminhava dentro das cabeças. Essa dialética vultosa com sua grande estruturação lógica teve que adaptar o conteúdo dentro de sua caixa(portanto, os fatos foram negligenciados para garantir a coerência), de outro lado, não era suficiente em seu espiritualismo para dar explicações satisfatórias para a realidade social. Mas deixou como legado a dialética moderna.

Em Marx há vários esforços de tentar integrar as ciências naturais com as ciências humanas, sua maior contribuição foi a conceituação de economia como relação do homem com a natureza. Ao encontrar isso, ele desvenda o caráter antagônico do homem com a natureza através de sua própria identidade com ela. O homem, ao ter o poder de criar os seus próprios meios de produção,  portanto, de modificar o meio ambiente e instrumentalizá-lo para ele, criou uma modificação específica que as ciências humanas buscam estudar.

A RELAÇÃO HOMEM E NATUREZA: DA ECOLOGIA A ECONOMIA

Antes de tudo, homem aqui é o conjunto dos homens, é a espécie homo-sapiens. Como tal e antes de tudo, o homem é um ser natural. Portanto, a separação idealista do homem com a natureza, se preocupando unilateralmente em se apoiar nos antagonismos entre ambos, é equivocada. O homem é um ser natural como qualquer ser, qualquer outra afirmação cairia na teologia ou misticismo. Mas como se dá a diferença específica que funda o homem como uma ciência própria para si mesmo? A relação do homem com sua natureza interna(organismo natural), não pode ainda ser mudadas por ele(com a genética e a pesquisa do genoma, isso já é possível), mas a relação do homem com a natureza externa, ou seja, meio ambiente natural, foi transformada pelo homem desde o dia em que passou a criar as condições materiais de sua existência.

Todos os seres vivos têm uma relação estudada na ecologia, como relação entre espécie e ambiente, essa relação determinou numa longa evolução genética através da luta e adaptação, a transformar a própria constituição ôntica dos seres, ou seja, formou e continua a formar as espécies tal como elas são. A escala de tempo da evolução natural é imperceptível a qualquer animal, pois estamos falando de milhões de anos. E como tal o homem é um animal, resultado de um tronco genético que culminou no ser que somos. E como qualquer animal tem uma relação natural entre espécie e meio, aonde a espécie intervém no meio sem modificá-lo. Quando o homem passou a modificar esse meio, domesticando animais, plantando, canalizando plantações, controlando o fogo, em suma, dominando a natureza paulatinamente, passou a fazer história, um tronco de acontecimentos que ocorre em escala de séculos e que determina as relações entre a natureza e o homem, e também a relação entre os homens:  forma social. Aqui Marx rompeu os diques da sociologia neokantiana, o homem era enfim restituído a sua mãe natureza.

A PROBLEMÁTICA DAS CIÊNCIAS DA PSIQUÊ

Marx desvendou a raiz natural da sociedade humana, e assim, abriu a nossa percepção para perceber a sociedade tanto como idêntica como distinta da natureza, essa distinção não rompia com a natureza, o homem era uma esfera dentro de uma esfera natural. O homo-sapiens se transformou em humanidade fundando a história através de uma relação transformadora com a natureza.

Mas falta ainda o caminho oposto, desvendar a raiz social da natureza humana. O primeiro trajeto rompeu com a problemática identidade e diferença entre natureza e sociedade, e deu uma base dialética real, historicamente identificável, na relação do homem com a natureza. O segundo trajeto romperá com todas as divisões e pseudociências sociais. O primeiro é o conteúdo, o segundo é a forma.

A psicologia é, entre as ciências, a mais especulativa entre todas, se organiza entre suas abordagens como um inegável sistema de dogmas. Enquanto terapia, ela é uma técnica curativa mais ou menos eficiente, enquanto ciência, ela é um dogma.

O caminho que eu vejo para se abrirem as fendas entre o comportamento/sentimento humano, visto socialmente como psicologia, é o estudo articulado da fisiologia, ou melhor, é o estudo do sistema endócrino relacionado ao sistema nervoso. O sistema nervoso trabalha como contato do homem com o meio, enquanto o sistema endócrino trabalha as respostas a esses estímulos. A psicologia em geral busca catalogar em diversos níveis como esse estímulo-resposta se comporta em cada situação social, desconhecendo sua fundamentação endócrino-nervosa, dessa forma, buscando especular uma teoria que responda coerentemente as suas pesquisas.

Se partirmos da hipótese kantiana, aonde no nível prático existe outra dimensão,  a liberdade se opondo a necessidade(natureza), então a psicologia é uma ciência possível. Mas, se admitirmos o homem como natural, integralmente natural mesmo em suas peculiaridades, então a psicologia é no mínimo uma ciência datada. Mais uma vez retorna a questão, enquanto prática profissional ela é uma técnica curativa para certos fenômenos psicossomáticos, enquanto ciência ela é um dogma ou mesmo mera especulação. Portanto, a psicoterapia e a psiquiatria se opõem como técnica curativa e ciência. A psiquiatria nem mesmo é uma ciência ou técnica propriamente dita, mas uma ciência técnica voltada para aplicar determinados medicamentos frente a determinados sintomas, enquanto tal é uma mera ramificação da aplicação técnica da ciência natural da biologia.

A problematização da psicologia se dá por sua natureza social e sua técnica curativa, é a técnica ela mesma social: a conversa. Aqui não busco analisar como ela é possível e representa certa desagregação social que gera os modernos fenômenos psicopatológicos, e por outro lado, de como elas tinham outras personificações em outras sociedades, tal como o confessionário, o shaman, etc. A fisiologia pode representar a base teórica que formalmente explica as interações dos conteúdos sociais determinados e seus reflexos.

A fisiologia, entendida aqui como relação entre neurologia e endocrinologia, expressa a possibilidade de identificar a causa de todos os fenômenos comportamentais, emocionais e cognitivos, mas para a psicologia restaria ainda o campo para organizar a técnica curativa, tal como a medicina é a técnica curativa baseada na biologia em geral. Em outros termos, a terapia deverá se integrar a medicina como forma de intervenção associada à medicação e cirurgia. Essa saída da psicologia das ciências sociais para as ciências naturais será a reintegração da psiquiatria com a psicologia, que como tal se tornarão apenas em procedimentos médicos determinando se a intervenção é cirúrgica, medicamentosa ou terapêutica. Assim, o terapeuta, o ex-psicólogo, psicoterapeuta, etc. se tornarão um profissional especializado da ciência técnica da medicina, sua fundamentação teórica será radicalmente rasgada, se extinguirá todas as seitas, e o trabalho científico do terapeuta se resumirá a somente aplicar a meios terapêuticos em base dos resultados dos estudos endócrino-neurológico.

SOBRE AS DEMAIS CIÊNCIAS SOCIAIS E A FILOSOFIA

Reconhecendo a forma natural em base de toda forma social, o estudo das ciências humanas se restringirá a relacionar forma e conteúdo. Como o material empírico das ciências humanas é monumental, a aplicação dessa dialética oferece ainda grande vida à específica ciência humana. A problemática permanece porque o pesquisador das ciências humanas não tem formação em ciências naturais. E essa base é fundamental. Seria importante que futuramente para alguém adentrar na ciência social, tenha formação geral em ciência natural, assim como para se entrar na ciência técnica tenha que ter as duas. Um desenvolvimento da educação mais célere talvez alcance isso.

E quem sabe, para ser um estudante de filosofia, ser preciso ter formação em todas as ciências. Só assim a pretensão universalista do filósofo terá um conteúdo concreto.

O que quis demonstrar aqui é como o trabalho de superação da dicotomia natureza e sociedade por vias científicas superam as dicotomias entre ciência natural e ciência humana, e por fim, como essa superação contribuiria para uma melhor ciência humana, ou seja, uma real ciência humana, não meramente uma acúmulo de material empírico conectado por especulações diversas.

Mas sinceramente me acho devidamente convencido de que as verdadeiras barreiras para uma ciência social são sociais, o fato de a ciência natural ter se desenvolvido tanto como nunca, se deve as condições de materialidade dessa ciência, sua própria pesquisa é imediatamente útil como  tecnologia, medicina, etc. dentro do modo de produção vigente. Mas vivendo numa sociedade alienada aonde o próprio trabalho, relação em si do homem e a natureza, é alienado, se torna quase impossível seguir adiante contra a separação, pois a separação é real. O trabalho de ciência social portanto deve ser crítica, de qualquer outra forma cairá em especulações dogmáticas inúteis, pois as condições de realização e necessidade de uma ciência social só se daria em uma sociedade aonde suas relações entre si e sua relação com a natureza fossem transparentes, e não mistificadas pela mercadoria, dinheiro e suas formas derivadas. 

 

[1] Aristóteles em sua ontologia(conhecida também como metafísica), ao afirmar que todo ser(efeito) tem uma causa anterior, e por outro lado, reconhece como absurda a possibilidade que a sucessão de causas recue ao infinito. Dessa forma faz uma das coisas que tratou em outro livro como sofisma, uma “petição de princípio”.